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É com muita satisfação que o Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul traz até você a trajetória de algumas mulheres gaúchas que se dedicaram, cada uma a seu modo, à saúde da população.
A mostra contempla o pioneirismo das médicas do estado, a importância das práticas populares das benzedeiras e, por fim, o trabalho das parteiras que, com ou sem formação, prestaram um grande auxílio à comunidade. Conheça um pouco mais sobre a vida dessas grandes mulheres, exemplos de força e sensibilidade, que estão sendo homenageadas nesta exposição.


Visite a mostra Mulheres e Práticas de Saúde: Medicina e Fé no Universo Feminino
Fotos: Felipe Henrique Gavioli





Relacionar o universo feminino à saúde é uma tarefa fácil e extensa ao mesmo tempo. Isso porque sempre coube à mulher proporcionar bem-estar àqueles que a cercam. No parto, nos cuidados maternais, na utilização de ervas, efusões e cataplasmas, pela fé na busca da cura, a condição feminina na experiência humana invariavelmente prevalesceu. Na medicina, encontrou espaço decisivo para o desenvolvimento desta vocação. Para o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, oferecer apoio ao Muhm representa a oportunidade de resgatar o trabalho e a memória de médicas e de outras pioneiras do atendimento em saúde. Portanto, nada mais simbólico do que inaugurar esta exposição nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, reconhecendo e homenageando todas as profissionais. 

Aproveitem a visita.

Maria Rita de Assis Brasil
Vice-Presidente do Simers










Médicas
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Na Idade Média, as Escolas de Salermo e de Paris admitiam mulheres, conferindo-lhes o direito de exercer a profissão de cirurgiãs e parteiras, porém, o acesso ao ensino formal para exercer a profissão de médica foi muito dificultado até o século XIX. Na Europa, a primeira mulher formada em Medicina foi Dorotea Erxleben, que obteve o diploma em 1754 na Universidade de Halle, na Alemanha. No Brasil, a primeira mulher a obter o título foi Maria Augusta Generoso Estrela, que através de uma bolsa de estudos concedida pelo Imperador D. Pedro II estudou em Nova Iorque, obtendo o diploma de médica em 1879. No mesmo ano, no Brasil, uma reforma no Ensino pelo Decreto n. 7217 de 19 de abril facultou o acesso de mulheres ao Ensino Superior: “É facultada inscripção (...) aos indivíduos do sexo feminino, para os quaes haverá nas aulas logares separados.” 

Foi em um lugar separado na sala de aula que a gaúcha Rita Lobato Velho Lopes freqüentou, primeiro no Rio de Janeiro, depois na Bahia, a Faculdade de Medicina, até tornar-se a primeira médica formada no Brasil, com a tese “Paralelo entre os métodos preconizados na operação cesariana", defendida em 1887. Médica notável, foi a primeira mulher eleita vereadora em Rio Pardo, no ano de 1934 pouco depois das mulheres conquistarem o direito ao voto. Seu mandato duraria até 1937, quando foi cassada pelo Estado Novo, de Getúlio Vargas. Atuou também em Jaguarão e Porto Alegre.

Sua dedicação fez escola entre suas conterrâneas. Ermelinda Lopes de Vasconcelos, porto-alegrense, concluiu o curso em 1888, no Rio de Janeiro, tendo o Imperador D. Pedro II presidido sua banca de defesa de tese. A jovem médica enfrentou muitas críticas por ser mulher em uma profissão, à época, eminentemente masculina. Contudo, dedicou-se a obstetrícia, realizando mais de 10 mil partos ao longo de sua trajetória dedicada à Medicina. A pelotense Antonieta César Dias também deixou a cidade natal para enfrentar o desafio de estudar. Diplomada em 1889, no Rio de Janeiro, com a tese “Hemorragia Puerperal”, completou a tríade de pioneiras. 

Movidas pelo desejo de tornarem-se médicas, as três gaúchas dirigiram-se às Faculdades de Medicina que existiam no Brasil na época. Em 1898, com a criação da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, a jovem Alice Mäeffer não precisou deixar o Rio Grande do Sul: matriculou-se na primeira turma, e em 1904 recebeu seu diploma. Segundo seus professores, foi aluna estudiosa, e a originalidade de sua tese repercutiu além do âmbito do Estado. 
 
Essas jovens tinham muito em comum: desafiaram os preconceitos de seu tempo para dedicar-se à Medicina. Outras mulheres seguiram o mesmo caminho. Médicas ainda atuantes que, além de serem pioneiras, (o crescimento da atividade profissional feminina ainda é recente), alcançaram níveis de excelência técnica e acadêmica. 
 

Rita Lobato (Acervo Muhm) Rita Lobato em foto para seu cartão de visitas (Acervo Muhm)
Rita Lobato: gaúcha, 1ª médica formada no Brasil




Beatriz Bohrer do Amaral  
 
1953 – Porto Alegre 
Formatura: 1984 – Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
Médica especialista em Diagnóstico por Imagem  
 
Foi uma das responsáveis pela introdução no Rio Grande do Sul do método Linfonodo Sentinela, importante passo para o combate ao câncer de mama. Também foi uma das pioneiras no Estado no uso da metodologia de diagnóstico intitulada Densitometria Óssea.  
Coordena o “Projeto Mulher & Saúde”, que surgiu na década de 1990 com o objetivo de ampliar o nível de informação sobre assuntos da saúde feminina para o público leigo. 
 
É membro da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, que congrega profissionais que se destacaram em diversas áreas do saber médico, ocupando a cadeira 23, cujo patrono é a pediatra Estela Budianski. 
 


Iole da Cunha 
 
1936 – Veranópolis 
Formatura: 1961 – Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
Médica especialista em Neonatologia 
 
Fez a Residência Médica no Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro, único na época que oferecia a oportunidade em Neonatologia. Foi uma das primeiras Neonatologistas de Porto Alegre. 
Em 1968, aproximadamente, iniciou suas atividades junto a um pequeno grupo que formou o Núcleo de Neonatologia, dando início à constituição do primeiro Hospital Materno Infantil do país, o Hospital Presidente Vargas em Porto Alegre. MD. Iole foi também uma das responsáveis pelo primeiro artigo publicado no Brasil sobre aleitamento materno e uma das idealizadoras do "alojamento conjunto", que propôs que as mães ficassem junto aos bebes após o parto. 


 
 

Liselotte Ursula Bruhn de Almeida  
 
1930 – Agudo 
Formatura: 1967 – Faculdade Católica de Medicina 
Médica especialista em Neurologia e Geriatria 
 
Fez Residência Médica no Serviço de Neurocirurgia do Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre. Há 40 anos presta atendimento médico no Hospital Conceição, onde foi Chefe do Serviço de Neurologia. Dedicada à Saúde Pública, presta atendimento em Postos de Saúde de cidades da região metropolitana de Porto Alegre. 


 
 
Maria Beatriz Mostardeiro Targa 
 
1945 – Porto Alegre 
Formatura: 1973 – Faculdade Católica de Medicina 
Médica especialista em Epidemiologia 
 
Dedicada ao ensino e à Saúde Pública, foi diretora da 1° Delegacia Regional de Saúde e do Departamento de Assistência Hospitalar e Ambulatorial da Secretaria Estadual de Saúde. Concomitantemente, sempre atuou e ainda atua como professora na hoje Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, lecionando disciplinas na área de doenças parasitárias e infecciosas. 
 
Desde 2005 é Diretora-médica do Hospital Santa Clara do Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, e atualmente é membro da Diretoria Executiva e Diretora de Ensino e Pesquisa da mesma instituição.  




Mery Lourdes Arpini  
 
1927 – Bento Gonçalves 
Formatura: 1957 – Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
Médica especialista em Ginecologia-Obstetrícia 
 
Em mais de 50 anos de prática médica, sempre voltada à Ginecologia e à Obstetrícia, realizou um infindável número de atendimentos e partos. Trabalhou nos Hospitais São Francisco, Beneficência Portuguesa, Ernesto Dornelles, Fêmina, Moinhos de Vento, entre outros.  
 
Após tantos anos de dedicação, não realiza mais partos, mas continua exercendo a medicina em consultório, atendendo muitas vezes mulheres que ela trouxe ao mundo. 


 

Mireia Simoes Pires Wayhs  
 
1931 – Bagé 
Formatura: 1956 – Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
Médica especialista em Ginecologia e Obstetrícia e em Cancerologia 
 
Após a formatura, fez cursos de especialização em São Paulo e no Rio de Janeiro, fixando-se em Ijuí. Passou então a executar cirurgias ginecológicas que antes não eram realizadas na cidade. Buscando cada vez mais atender com qualidade seus pacientes, especializou-se também em cancerologia, tendo em vista o grande número de casos de câncer que verificava. 
 
Além de realizar atendimento em clínica particular, atualmente é médica no Hospital de Ijuí. Presta atendimento também ao CACON (Centro de Alta Complexibilidade em Oncologia). Foi presidente por 3 mandatos consecutivos da regional da AMRIGS em Ijuí e Conselheira do CREMERS por 5 anos.  


 
Newra Tellechea Rotta 
 
1939 – Uruguaiana 
Formatura: 1963 – Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
Médica especialista em Neurologia Infantil (Neurologia Pediátrica) – Livre Docente em Neurologia Infantil 
 
Além atender pacientes em uma clínica, atuou como professora da Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, onde foi chefe dos Serviços de Neurologia, Neurocirurgia e Neurologia Infantil. Quando a instituição já se chamava Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, foi sua Vice-Diretora. Também foi professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando no Hospital de Clínicas, onde dirigiu o Serviço de Neurologia. 
 
Ainda na área acadêmica, foi a responsável pela criação no Rio Grande do Sul da especialidade “Neurologia Infantil” e participou da criação do Programa de Pós-graduação em Pediatria na UFRGS, o qual coordenou por 4 anos.  
 
Em 2006 recebeu o prêmio Ramón Y Cajal da Academia Ibero-americana de Neurologia Pediátrica, destinado a profissionais médicos com destacada atuação na área, sendo a primeira vez que um brasileiro recebeu o prêmio. 


 
 
Rita Suzana Camargo Souto 
 
1934 – Caçapava do Sul 
Formatura: 1960 – Universidade Federal de Santa Maria 
Médica especialista em Pediatria 
 
Pioneira, esteve presente na inauguração da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria, sendo formanda da Primeira Turma da Instituição. Especializou-se na Universidade de Lyon, França. Retornando ao Brasil, trabalhou na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e na Faculdade de Medicina da UFRGS com a Professora Maria Clara Mariano da Rocha, destacada pediatra no Estado. 
Desenvolveu atividades no setor público, sendo médica da Divisão de Saúde da Secretaria Estadual de Educação e do INAMPS, além de ter exercido vários cargos dentro da Sociedade Brasileira de Pediatria. 
 
Exerce suas atividades desde 1968 na Associação dos Funcionários Públicos do Estado do Rio Grande do Sul. 



Themis Reverbel da Silveira  
 
1938 – São Gabriel  
Formatura: 1964 – Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
Médica especialista em Gastro Pediatria – Doutora em Genética 
 
Uma vida dedicada aos pacientes, ao ensino e pesquisa. Lecionou na FFFCMPA e na UFRGS, onde foi a responsável pela criação da especialidade “Gastroenterologia Pediátrica”. Na mesma Instituição, criou o Programa de Transplante de Fígado para crianças, pelo qual é responsável até hoje. No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, fez parte do Corpo Dirigente por 8 anos, período em que esteve à frente do Grupo de Pesquisa e Pós-Graduação (GPPG) do Hospital. 
 
Em 2007 foi homenageada com um congresso internacional que levou seu nome: “Simpósio Prof. Themis Reverbel da Silveira – Simpósio atualização em Gastro Pediatria do IAD”. Recebeu o título de Cidadã Honorária de Porto Alegre em reconhecimento ao seu trabalho. 


 
 
Valderes Antonietta Robinson Achutti  
 
1931 – Caxias do Sul 
Formatura: 1960 – Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
Médica especialista em Medicina Interna e Cardiologia 
 
Iniciou sua especialização fazendo residência em Medicina Interna na Enfermaria 38 e na enfermaria 2 da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Foi médica clínica da Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente do Estado, do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Ferroviários e Empregados do Serviço Público e do INPS. 
 
No campo acadêmico, orientou alunos da Faculdade Católica de Medicina na Santa Casa e foi professora de Semiologia e Cardiologia na Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Além de atender em clínica particular, exerceu atividades no Hospital da Beneficência Portuguesa, Ernesto Dornelles, Mãe de Deus, Moinhos de Vento e Instituto de Cardiologia. 


Benzedeiras e Parteiras
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Benzedeiras

Desde tempos imemoriais as mulheres sempre estiverem associadas a práticas mágico-religiosas, ao conhecimento do corpo, aos ritos de fertilidade, à manipulação das ervas e chás, aos saberes da natureza e outras tantas práticas consideradas femininas.   
 
Nas metamorfoses do conhecimento, as mulheres e suas práticas têm sido estudadas e desvendadas, tornando-se importantes objetos de estudo da história. Muito tem sido desmistificado, muito tem sido comprovado, muito tem sido negado, muito ainda temos por descobrir. O que é certo é que as mulheres benzedeiras e seus dons transmitiram-nos, ao longo do tempo, um mosaico infindável de práticas de cura que mesclavam conhecimentos naturais, pragmatismo e fé.    

Presentes em nossas memórias familiares, em nosso universo mágico-infantil, na realidade e na ficção, as benzedeiras estiveram e ainda estão presentes em nossa sociedade de forma significativa. Registrar suas trajetórias de vida por meio de suas memórias e incentivar a valorização de uma expressiva cultura popular é uma forma de preservar seus conhecimentos específicos, grande parte deles alicerçados na oralidade de suas rezas, saberes estes ameaçados pelo esquecimento.  
 






Ana Marisa Aguirres da Silva  
1943 – Restinga Seca 
Benzedeira 
Atuação – Porto Alegre 

Em meio à "cidade grande", apesar da modernidade, alguns resquícios do passado podem ser observados. Um desses é a atividade que Dona Ana Marisa ainda desenvolve em Porto Alegre.  
Quando tinha 14 anos, aprendeu a benzer com a madrinha, que, segundo ela, “deixou de lembrança as rezas”. Todas as pessoas que a procuram precisam retornar 3 vezes para obter uma melhora completa.  Ela não benze aos domingos e depois que o sol se põe, visto que é um período de descanso. Tesoura, arruda, carvão e copo com água são seus instrumentos, que aliados às orações à Virgem Maria, acompanham sua prática. 
Dor de barriga, quebranto, rendidura e sapinho nas crianças, são as benzeduras mais procuradas. 
 
“Deus que me dá força para transmitir o bem”. 


 
Enedina Rodrigues 
Alegrete 
Benzedeira 
Atuação – Garibaldi 
 
Dona Enedina não recorda o ano que nasceu, apenas que há 60 anos está em Garibaldi, onde tem um grande número de amigos que conquistou através de “seu dom”. Aprendeu com uma amiga, que lhe transmitiu suas artes antes de morrer. Segundo ela, toda benzedeira precisa passar para outra pessoa seus conhecimentos. Até agora, não encontrou ninguém interessado em receber tais conhecimentos, pois todos julgam, segundo ela, “ser muito compromisso”. 
Às vezes recebe tantas pessoas que parece que está acontecendo uma festa em sua casa. A exemplo de outras benzedeiras, aos domingos descansa. Benze também à distância, pelo nome da pessoa e através de uma peça de roupa. Mau olhado e inveja, esses são os problemas para os quais é mais solicitada. 
 
 
“Eu tento ajudar todo mundo... benzo pessoas, animais, plantações... eu gosto de ajudar”.
 

 

Maria Petronilha dos Santos Silva (D. Nina) 
1929 – Santana do Livramento 
Benzedeira 
Atuação – Capivari do Sul e região 
 
Nina: esse foi o apelido que escolheu e através do qual é conhecida em toda a região onde vive a mais de 30 anos.  Queria benzer “desde criança”, mas a mãe lhe disse que se começasse a benzer cedo não se casaria. Como queria casar, esperou. Não aprendeu com ninguém, diz que a  “reza vem”. 
Benzedeira experiente, já viajou muito para benzer plantações e animais no interior do Estado. Também benze à distância, suas rezas se destinam a pessoas que moram em Porto Alegre, Mato Grosso, Bahia e Rio de Janeiro. Como a maioria, senão a totalidade das benzedeiras, não cobra pela sua ajuda, aceitando somente o que lhe oferecem espontaneamente. 
 
 
“A benzedura é um pedido para Deus... sem Deus eu não sou ninguém”.
 

 
Miguelina Ferreira de Lemos 
1902 – Mostardas 
Benzedeira e parteira “curiosa” 
Atuação – Mostardas e região 

Descendente de escravos, Dona Miguelina, com mais de 100 anos, é a quilombola mais idosa do Estado. Sempre morou em Mostardas, onde atuou como parteira e benzedeira. Aprendeu a fazer partos com a mãe e a benzer ao longo de sua vida. Ficava dias fora de casa, atendendo a quem precisasse, “fosse negro ou branco”. Chás e rezas faziam parte de seu repertório contra todos os males. 
 
“O que era para um, era para todos. Não me interessava a cor”. 

 
Zeli da Rosa Neto 
1930 – Capivari do Sul 
Benzedeira 
Atuação – Capivari do Sul e região
 

Foi um sonho com Nossa Senhora que fez Dona Zeli começar a benzer. Nesse sonho, a santa a instruiu. Pediu que comprasse livros de rezas e passasse a benzer quem a procurasse. Conhecida na região, recebe muitas pessoas, não havendo dia nem hora para benzer.  
Pessoas de longe ligam e deixam o nome para ela benzer, outros trazem roupas de seus filhos; há ainda aqueles que a levam para o Interior para benzer plantações e muitos ginetes a procuram antes de competições. 
 
“Para tudo existe uma benzedura”.

 

Parteiras


Vocação para cuidar. Assim as parteiras explicam o seu fazer. Vocação para cuidar de outras mulheres em um momento tão importante e delicado do universo feminino: o “ganhar” o filho. Mulheres obstinadas, não deixavam nunca de atender as parturientes, mesmo que para isso tivessem que deixar seus próprios filhos, atravessar enchentes, subir morros no lombo de cavalos, ficar dias na estrada, aprender a conduzir charretes e carros...  

Algumas dessas parteiras estudaram, tiveram um preparo oficial em Escolas de Partos. Outras aprenderam na prática ao acompanhar a avó, a mãe... quando essas saiam para trabalhar. Mesmo com diferenças na constituição do saber, trabalhavam, ora auxiliando, ora substituindo os médicos - dadas as distâncias e a carência destes profissionais. As parteiras eram respeitadas pelo conhecimento que possuíam, cuidavam não só da parturiente como também de toda a sua família. Sua determinação muitas vezes levou à criação de maternidades. 

Essas mulheres guardam na memória as imagens de cada mãe ao ter pela primeira vez o filho nos braços. Guardam o choro dos bebês que ajudaram a vir ao mundo, choro que não é de dor e sim de vida. Vida da qual foram um pouco responsáveis. Atualmente, suas atuações são raras nos grandes centros. Contudo, em um país com proporções tão extensas, essas mulheres ainda têm um papel importante.
 





Anita Engelmann 
1928 – Rolante 
Parteira “curiosa” 
Atuação – Igrejinha e região 

Aos 22 anos, fez o primeiro parto. Sem nunca ter visto uma criança nascer, teve que ajudar a cunhada a dar a luz: “era muito longe para buscar o médico". A partir de então iniciou sua vida profissional. Com o apoio do esposo e dos poucos médicos da região, que viam nela uma aliada, uma vez que não poderiam estar sempre presentes devido às distâncias, começou a estudar sozinha, ganhando e comprando livros e estando sempre atenta às explicações que ouvia de médicos conhecidos. 

Devido ao grande número de mulheres que a procuravam, resolveu com recursos próprios e a ajuda da comunidade construir uma maternidade. Em 1982, quando contabilizava mais de 2 mil partos, uma enchente que atingiu a cidade fez com que perdesse seus registros. Nunca concordou com simpatias e outras “crendices”; porém, sua fé em Deus sempre foi inabalável. 
 
“Eu me dedicava. Eu não me importava com a minha vida... muitas vezes eu deixava meus filhos sofrer...”

 
Clara Raspolt 
1911 – Selsenkirchen, Alemanha 
Parteira formada 
Enfermeira Obstétrica – Faculdade de Medicina do Paraná, 1934 
Atuação – Ijuí e região 
 
Nascida na Alemanha, chegou ao Brasil ainda criança, com 3 anos de idade. Passou por vários municípios até instalar-se em Ijuí. Antes de ingressar no curso superior já realizava partos, tendo aprendido com Ida Hockel, uma das primeiras parteiras do Rio Grande do Sul, reconhecida pelo seu trabalho e dedicação.  

Criou em sua casa uma pequena maternidade, ficando rapidamente conhecida na região. Todos sabiam chegar até o local, que possuía uma placa, onde podia se ler “Clara Raspolt – Parteira Diplomada”. 
Sempre deixou claro às mulheres que se não pudesse ajudá-las às levaria ao hospital, para um tratamento médico, o que muitas vezes causava comoção entre a parturiente e sua família, uma vez que, naquele período, o hospital era visto como um lugar para onde só se iria para morrer. 

Como outras profissionais, não tinha hora para trabalhar, saindo de casa muitas vezes de madrugada e ficando dias longe da família. Chegou a atender mais de três nascimentos por dia, calculando que em toda a vida profissional realizou mais de 2800 partos. 
 
“Em alguns casos, a parteira não podia ajudar. Era preciso levar ao hospital...”

 
Dolores Gonçalves 
1924 – Itaqui 
Parteira “curiosa” 
Atuação – Uruguaiana e região 
 
Iniciou a vida profissional aos 17 anos, quando acompanhava a avó pelo interior de Itaqui. Em Uruguaiana, atendeu muitas pessoas, carregando sempre consigo remédios homeopáticos, que ela chamava de “remédios campeiros”. Também usava como recurso chás e o diálogo com as parturientes, acalmando-as antes de iniciar seu trabalho. Só na família realizou mais de 20 partos. 
Não acreditava em simpatias, apenas no seu trabalho, nos remédios que carregava e em Deus. 
 
“Tenho muitos “netos de parto”, crianças que passaram pela minha mão”.
 

 
Iara Tavares de Ávila Veiga  
1929 – Alegrete 
Parteira formada 
Enfermeira Obstétrica – Faculdade de Medicina de Porto Alegre, 1952 
Atuação – Porto Alegre e região metropolitana 

Depois de concluído o curso fixou residência em Viamão, onde foi por anos referência na cidade. De tão conhecida, tornou-se vereadora, conquistando em sem mandato verbas para a criação de uma enfermaria destinada às parturientes no hospital do município. 
Sempre levou em consideração as orientações de seus professores médicos, que alertavam para a necessidade de um acompanhamento à futura mãe, desaconselhando um parto “de última hora”. 

Já instalada em Porto Alegre, chegou a abrigar em sua casa mulheres de outras cidades e até de outros países. Uruguaias e Argentinas vinham até ela em busca de atendimento. Aposentou-se com mais de 6 mil partos. Poucos, segundo essa profissional que não tinha férias, que não viu seus próprios filhos crescerem, mas que amou muito seu trabalho. 
 
“Tive muito amor pela minha profissão. Fiz por amor. Se você vai fazer qualquer coisa com amor, faz bem”.
 

 
Maria Guilhermina Mayer 
1922 – São Martinho da Serra 
Parteira “curiosa” 
Atuação – Santa Maria e região
 

Fez seu primeiro parto aos 22 anos e a partir de então não parou mais. Atuando na maternidade do Hospital de Caridade de Santa Maria chegou à chefia do setor.

Aprendeu a profissão na prática, recebendo auxílio de alguns médicos, que naquele período eram poucos. Aposentou-se como parteira no Hospital da Brigada Militar, também em Santa Maria. Perdeu a conta do número de partos que realizou, sabendo apenas que foram muitos.
 
"A aula pra mim foi a vida, o mundo, as coisa que se apresentavam... eu tinha que fazer..."



Miguelina Ferreira de Lemos 
1902 – Mostardas 
Benzedeira e parteira “curiosa” 
Atuação – Mostardas e região 

Descendente de escravos, Dona Miguelina, com mais de 100 anos, é a quilombola mais idosa do Estado. Sempre morou em Mostardas, onde atuou como parteira e benzedeira. Aprendeu a fazer partos com a mãe e a benzer ao longo de sua vida. Ficava dias fora de casa, atendendo a quem precisasse, “fosse negro ou branco”. Chás e rezas faziam parte de seu repertório contra todos os males. 
 
“O que era para um, era para todos. Não me interessava a cor”. 





Espanhol Inglês  Visitações de terça a sexta-feira das 11h às 19h - Sábados, domingos e feriados das 14h às 19h. Durante o hor�rio de verão abre e fecha 1 hora mais tarde.

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